quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

OUTROS ARES - Sensações entre palmeiras e sabiás.


Em “Outros Ares” o palco está aberto para transformações e sensações a partir do encontro entre corpos e objetos que habitam a praça, lugar largo e espaçoso, ordinariamente rodeado de edifícios, postes, pombos, árvores.

Leônidas Portella expondo as instruções numa palmeira da Praça Gonçalves Dias
Foto: Francisco Jara

Partindo de um roteiro de instruções previamente definido pelo coreógrafo, os dançarinos se espalham na praça para executar ações sem necessariamente ter como objetivo a criação de cenas, a atmosfera cênica se configura no espaço quando outros estímulos e obstáculos são colocados no jogo. Jogo seria a melhor definição para “Outros Ares”, há uma busca de olhares, uma conexão entre os corpos, uma necessidade de aguçar os sentidos para experimentar um dança inicialmente indefinida, que se define com a história do movimento dos dançarinos, do novo olhar sobre o espaço.

Núcleo Atmosfera dançando em diferentes momentos em "Outros Ares" na Praça Gonçalves Dias
Foto: Francisco Jara 

Vestidos socialmente para uma festa, sobre a grama, dançarinos executam modelos de ações corporais labanianos e o desnível do chão parece comunicar dificuldades humanas, as transformações do corpo no espaço cotidiano começam a causar estranhamento nos visitantes da praça. Os dançarinos brincam com suas sombras, uma ação simples que traz lembranças da infância, de um tempo que permanece vivo apesar das transformações do mundo, das transformações humanas, da evolução de tudo o que nos afasta desse universo repleto de reis, fadas, princesas, duendes e unicórnios.

Será que o presente é realidade? 
Será que o futuro realmente existe? 
E o passado? 
O que o homem faz com isso tudo? 
Há quanto tempo não percebemos nossas sombras? 
Há quanto tempo criamos nossas próprias sombras?

Neusa de Paula, Rosa Ewerton Jara e Luís Ferreira sobre a grama em "Outros Ares", dançando com suas sombras na Praça Marina Aragão

Cada dançarino executa um passo simples de tango que se repete durante toda a peça, no intervalo entre ações, a repetição deste passo define uma postura carregada de personalidade e autonomia, os corpos se organizam após a percepção e o respeito entre as diferenças e a dança passa a habitar a Praça Gonçalves Dias em São Luís do Maranhão, onde palmeiras e sabiás permanecem vivos entre patins e skates.
A poesia já habita a praça embora a maioria de seus visitantes não consigam percebê-la. 

Afinal, quem se interessa por poesias em praças nos dias de hoje? 

Nossos corpos!

E a dança parece dar corpo à poesia, quando o ar brota dos pulmões dos dançarinos e se mistura ao ar da praça, seja no convite para o visitante dançar sobre um banco, seja no deitar sobre o chão para ouvir risos de crianças, seja na conversa, no olhar, na reprodução do movimento dos galhos das palmeiras, na patinação sem rodas nos pés, na liberdade e na simplicidade do gesto.

Núcleo Atmosfera - NUA, deitados e cercados por crianças que visitavam a Praça Gonçalves Dias
Foto: Francisco Jara
Núcleo Atmosfera - NUA, dançando passos simples de tango em "Outros Ares" na Praça Gonçalves Dias
Foto: Francisco Jara


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Prêmio de Melhor Trabalho de Pesquisa em Dança 2010

Grato pela singela homenagem que recebi em 2010.

Homenagem nas mãos de Leônidas Portella
Foto: Manlio

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Sinal

Sinal - Num Trânsito de Sensações

Luís Ferreira, Timóteo Cortes, Rosa Ewerton Jara, Cleyce Colins, Alex Liberato, Neusa de Paula em "Sinal"
Foto: Uriel Ewerton

Numa avalanche de sensações, tento propor algo que relacione Dança e Performance, chamo esse primeiro momento de “Sinal”...

Experimentar possíveis relações entre Dança e Performance no espaço urbano, conceber uma obra sem ensaio, refletir sobre o que definimos enquanto espetáculo, são algumas das inquietações que contribuem para a concepção de “Sinal”.

Sinal – sinônimo de indício, vestígio, rastro, traço. A faixa de pedestres é um espaço cotidiano por onde transitam tensões, sensações, onde cores mudam eletronicamente para que corpos possam alcançar um foco, o outro lado da rua, por onde continuam a percorrer, ultrapassando os limites do tempo. No sinal há cruzamentos entre corpos desconhecidos, no trânsito natural da vida, onde a dança surge, interfere, torna-se poesia na paisagem urbana.

O sinal de trânsito define a hora certa de parar, observar, atravessar para o outro lado da rua onde provavelmente as pessoas caminharão mecanicamente sem comunicação alguma, o corpo espera uma ação eletrônica e reage imediatamente, tencionando músculos em frações de segundos.

A complexidade de “Sinal” está em sua simplicidade, no movimento que se revela dentro de um roteiro de ações o dançarino traz sua identidade, sua memória, suas características pessoais para que deste modo a coreografia se defina em tempo real. Dançar sem ensaio de forma livre no meio da rua, há outra maneira mais sensível para poetizar o cotidiano dentro dele mesmo?

Penso agora numa discussão sobre a verdadeira função da arte quando observo esse transporte da convencional caixa cênica diretamente para a rua, onde o leigo, culto, apressado, focado, está em constante movimento e inserido na ação, onde o cenário é composto por pombos, prédios, carros, postes, luzes, cores e principalmente por pedestres.

Sinalizamos pela dança num fluxo onde transita as sensações. 

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Fotos de "Vem Cá Curiá" na Mostra SESC Guajajaras de Artes em São Luís - MA

Leônidas Portella em "Vem Cá Curiá" no SESC Deodoro em São Luís do Maranhão, dia 29 de outubro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Panorama 2010 | Lucy Guerin :: Untrained :: Leônidas Portella

Tentei fazer minhas anotações mas há certos momentos que são impossíveis de descrever, é quando o corpo fala demais. Posso afirmar que foi tudo único, engraçado, novo e válido.
Para resumir esse momento, confira o vídeo feito pelo Festival Panorama de Dança do Rio de Janeiro sobre esta experiência:

No Salto do Bailarino

Confesso que fiquei surpreso por ser um dos dois bailarinos selecionados para integrar a Residência Untrained da coreógrafa australiana Lucy Guerin no Panorama de Dança no Rio de Janeiro-RJ, reconhecido como um dos eventos mais estruturados no cenário da dança contemporânea brasileira, que abre espaço para apresentações de trabalhos dos principais pesquisadores brasileiros e estrangeiros.
Minha surpresa é o reflexo da minha insegurança dentros das condições em que a dança contemporânea se encontra no Maranhão, enfraquecida, por questões políticas, socais, profissionais e consequentemente pessoais, afinal não há vida em corpo de ferro. Cresci na dança ouvindo o discurso da “união dos bailarinos”, e isso me deixa cada dia pequeno, são muitas palavras e poucas ações, meu corpo já não suporta as repetições de fatos que terminam enquadrados e que não apresentam crescimento algum, não suporto as incansáveis e frustrantes tentativas de recuperar algo que talvez ainda não amadureceu em nossos corpos,  em nossos pensamentos verdes, talvez podres.

Vou fazer minha parte e quem quiser faça a sua!
 
Já ouvi bastante esse enunciado e resolvi fazer uma breve análise (de significação pessoal):

Vou – pensamento sobre uma ação futura.
Minha – posse, pensamento no ego.
Parte – um pedaço, quase uma poeira cósmica.

Sempre fui consciente que só minha parte não basta, que minha parte é apenas um passo para a mudança de um estado no futuro, que corre o risco de permanecer apenas no presente e logo se tornar passado.  Estou farto de discussões que se resultam em poeira, sem rastro algum.

Como e quando acontecerá o milagroso encontro entre os profissionais de dança do Maranhão?

Não sei!

A única certeza que tenho é que estamos longe do alcançe dos avanços que o universo artístico está respirando, estamos sempre fechados e armados para as propostas e isso nos deixa no caos da estagnação.

Penso nisso depois desta oportunidade que estou me dando de experimentar e trocar movimentos com outros corpos com coreógrafos brasileiros e também estrangeiros, estando fora do meu Estado.

Essa foi a saída que encontrei para não me sentir um bailarino inútil no Maranhão, sair viajando, “caçando movimento” para ampliar meu olhar, enriquecer o que já existe e o que ainda poderá existir na nossa dança.
E agora reflito sobre um passado (não muito distante) onde os dançarinos eram considerados “seres espontâneos”, onde Laban começou a romper com esse pensamento com suas propostas, disse que voz é dança, por que dança é tudo aquilo que gera movimento e a voz movimenta as cordas vocais. E se não temos voz provavelmente não teremos dança.

Hoje, estou no Rio de Janeiro - RJ, tendo uma experiência única com Lucy Guerin, ansioso para levar todo esse aprendizado para outros dançarinos do Maranhão.

Quadrado - Espaço onde todas as ações acontecem
Sugestões de ações
Lucy Guerin e Leônidas Portella
Rodrigo e João (untrained), Lucy Guerin (coreógrafa), Chico e Leônidas (trained)
Aquecimentos no espaço de ações
Lucy Guerin na escolha das instruções
Momento de descontração

A Criação de Dramaturgias no Núcleo Atmosfera de Dança-Teatro

Clique abaixo e leia a descrição do minha pesquisa apresentada no II Mostra e Seminário de Dança-Teatro na Universidade Federal de Viçosa-MG


Abraços Dança-Teatro para todos!!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Dois bailarinos brasileiros foram selecionados para integrar o Untrained com a coreógrafa Lucy Guerin (austrália)

Caro Leônidas

Confirmamos sua participação na oficina Untrained da Lucy Guerin que acontecerá no Festival Panorama 2010.

A oficina acontecerá entre quarta 3 de novembro e sexta 5 de novembro de 2010 das 10:00 as 17:00 na Teatro Carlos Gomes na sala de ensaios Sala de Espelhos,  Rua Pedro I, 4 – Praça Tiradentes, Centro - Rio de Janeiro.
Os resultados da oficina serão apresentados no SESC Copacabana – Mezanino – na terça 9 de novembro as 19h.

Um abraço,
Ioli


Ioli Georgila
Assistente da Produção / Production Assistant
ioli.georgila@panoramafestival.com
skype: ioli.georgila
Rua da Lapa 213
20021-180
Rio de Janeiro – Brasil




Untrained / Foto divulgaçãoLucy Guerin (Austrália) >>> Untrained
Proposta: o workshop trabalhará com a proposta do projeto Untrained, novo trabalho de Lucy Guerin Inc, que questiona nossas ideias sobre o que vale a pena assistir em uma performance. Esta experimentação casual apresenta quatro homens em uma investigação bem-humorada de si mesmos e de sua arte.
Dois destes homens são dançarinos experientes, bastante treinados e os outros dois não têm qualquer treino corporal. Aquilo que um homem consegue fazer com facilidade, o outro só consegue chegar perto. Mas há coisas que um corpo treinado não consegue fazer e que um corpo não treinado consegue. Todos os performers recebem as mesmas instruções. A maneira como eles as executam constrói um retrato individual de cada homem e também uma inevitável comparação entre eles.
Untrained (não treinado) é sobre a expressão do corpo, como ele é definido pelos longos anos de treino de dança, além daquilo que pode ser interessante em comparação com um corpo não treinado. Esta evolução de informação sobre cada homem, construí­da através de unidades de ação, aponta aquilo que nos aproxima e aquilo que nos diferencia como indiví­duos.
Participantes:
  • 2 bailarinos profissionais (homens);
  • 2 amadores: homens que não tenham em seu trabalho nenhum treinamento físico/corporal.
Inscrição: para se inscrever, o interessado deve enviar um currículo resumido (um parágrafo) e uma carta de intenção (texto corrido/ um parágrafo), explicando o motivo pelo qual deseja participar da residência.
Para bailarinos profissionais: uma pequena apresentação de seu projeto atual.

Fonte:


Leônidas Portela Vem Cá Curiá

sábado, 30 de outubro de 2010

O Encontro dos Universos

Roxa: caixeira, acostumada com terreiros, ligada ao movimento da arte popular maranhense.
Leônidas: bailarino, acostumado com palcos, ligado ao movimento da arte contemporânea.

Roxa me chama de "menino".
Eu chamo Roxa de "flor de canela".

E assim nossa relação se constrói e ganha verdade a cada momento, mesmo nos mais inusitados de ambos os universos.

Encontrei o Divino em Roxa, a Roxa  também é Branca, como uma pomba do Divino, na brancura de suas penas, na simbologia da Paz, na transparência de sua leveza no movimento de suas asas. Nunca pensei que as pombas fossem tão multipolares. Senti essa multiplicidade ao apresentar na Mostra SESC Guajajaras de Artes em São Luís, a primeira fase da pesquisa "Vem Cá Curiá", em caráter ainda performático.

Me disseram em outro momento que só ama a performance quem odeia o teatro, não concordo com essa afirmação pois a performance também a arte, e que espécie de artista pode amar uma linguagem detestando outra? Não desconsidero que a performance é contra a cena, que não se precisa ensaiar para fazê-la, mas o seu resultado é uma cena embora não seja esse o seu propósito inicial. Existe um eu (performer) e existe o outro (espectador), essa relação não passa de uma herança do teatro, embora o eu seja substituído por um sujeito (personagem). Será ódio mesmo ou será o grito do ego?

Voltando para o meu contexto, para a minha performance (amo o teatro), convidei a Roxa para estar comigo na performance e ela aceitou, elaborei um roteiro de possibilidades, tive muitos treinamentos nos últimos dias, preparei meu corpo para um tempo desconhecido no tempo do corpo presente, no tempo real, para o aqui e agora.

Roxa, habituada em tocar com outras caixeiras na Festa do Divino Espírito Santo ou para os brincantes do Cacuriá, parecia tensa, preocupada, me perguntou o que era para fazer, pedi que ela tocasse para eu dançar, começando com o toque do divino e depois fizesse uma variação rítmica a partir dos animais que ela conseguisse visualizar no meu corpo. Roxa achou tudo estrando, mas aceitou as condições propostas, pediu que providenciasse uma segunda caixa e convidou Neusa para entrar com ela tocando, não sei exatamente por que Roxa tomou essa iniciativa, acredito que ela estava muito nervosa, queria mesmo uma companhia que desse apoio para ela nesse momento inusitado, além disso, é bem típico das caixeiras não temer perante os desafios encontrados na vida pela fé infinita que elas carregam, o que era desafio se tornou destino. E o meu corpo ao entrar em conexão com o corpo da caixeira, traçou esse destino.

Flor de canela - E que hora tu vai parar de dançar menino?
Menino - Quando minha caixeira permitir!

Antes de tudo começar, combinamos que primeiro viria o toque sagrado e sempre que ela conseguisse visualizar posturas de animais no meu corpo teria que mudar para o toque profano. Quando anunciaram meu nome percebi uma multidão se aproximar, fui muito respeitado, fui digno de um grande silêncio.

A caixa tocou, meu corpo embalou...

Pensei que o tempo do sagrado fosse permanecer por mais tempo, eu havia planejado assim, mas aconteceu o inevitável, totalmente diferente do planejado, foi nesse momento que a essência da performance começou. Roxa viu as asas de um passarinho nos meus braços logo no inicio do trabalho, e o toque sagrado mudou bruscamente para o profano, tomando a maior parte do tempo e o sentido das ações. Tentei reverter a situação  com gestos mas não consegui fazer Roxa diminuir a velocidade do toque, ela parecia estar em outro plano, num plano cósmico e essa cosmogonia  ritualizou o momento, me lancei no espaço, dançando no ritmo acelerado da caixa, criando futuros provisórios.
Percebi que eu estava compondo tudo naquele exato momento, graças às influências do aprendizado que tive ao vivenciar o método de Composição em Tempo Real numa Residência Artística com  o renomado coreógrafo português João Fiadeiro na Bienal Internacional de Dança do Ceará. Estava construindo aquilo que o João define como Tubo Estigmérgico. Esse tubo se estendeu, e mudou de paradigma quando me aproximei da caixeira na tentativa de parar a performance, lembrei do que havíamos combinado antes de começar o trabalho, tive que encontrar uma solução para esse tubo, parei, respirei fundo com a cabeça baixa reverenciando a presença do Divino Espírito Santo na imagem e no toque da caixeira, voltei a me movimentar num momento em que tudo parecia estar perdido com uma intensidade nunca experimentada pelo meu corpo.

Senti-me um grão de areia, assim o homem é perante o Divino. O homem vive as consequências de suas escolhas, são essas escolhas que traçam os caminhos, às vezes retos, às vezes tortuosos. O precisa de fé, acreditar em algo, acreditar em si mesmo talvez, mesmo que não seja o suficiente.

Eu acredito nas forças divinas sobre meu corpo.

Depois da performance me enchi de questionamentos, sempre dancei coisas prontas, coreografadas, cenicamente bem definidas, me surpreendi com tanta ousadia, percebi que minha dança se transformou a partir do Divino.
Ao chegar em casa conversei muito com Valda, Neusa, Thatielle, são artistas, são amigas, logo suspeitas, cada uma teve uma leitura diferente ao acompanhar a performance.
Meu irmão Thallis (outro suspeito), me contou que no momento da apresentação ouviu um comentário de um espectador que estava atrás dele, um comentário que não lhe deixou muito contente. O espectador desconhecido por ele, leigo em arte, disse "lugar de cascavel não é aqui". Após o descontentamento ele resolveu refletir sobre o comentário e constou que era positivo, no inicio da apresentação sigo o ritmo da caixa usando apenas a musculatura das costas, uma ação simples que provocou um efeito de hipnose. A cobra cascavel sempre hipnotiza antes de dar o bote, me senti honrado por tamanha comparação.

Tive sensações jamais vividas no universo da minha dança. Viva o Divino!



quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Assa Cana

Leônidas Portella experimentando movimentos no Salão Versátil do Teatro Arthur Azevedo
Foto: Neusa de Paula

Existe um caminho sem retorno, alcântara que liga o corpo aos dois polos conflitantes, de um lado eu, do outro o desconhecido, escuro e claro. Há uma caixeira em primeiro plano e ela decide o jogo e o tempo, enquanto confirmo a exatidão da ações, a intenção do gestos e a conexão entre nossos diferentes universos. Nesse caminho há sempre uma escolha e uma consequência, o deslocamento é a escolha e a consequência é o destino.
Um chapéu espera a cabeça do brincante que agora não quer só brincar, quer também propor uma reflexão sobre a história do seu corpo sobre a satisfação do cansaço.
A caixeira toca para que o Divino apareça, para que o corpo do homem seja digno e transpareça tudo, inclusive o pecado. Mas o que é o pecado? O pecado é voltar, é perder a relação com o chão, é imobilizar o tronco, é como se meu corpo fosse uma cana em deslocamento, com suas raízes e seu tronco.
A doce ancestralidade reverbera nos poros.
A cana está verde, cercada de bichos, o jabuti traz longevidade, o jacaré sacode o rabo e o gavião totoria no galho da imbaúba.
Assa cana, para que eu me aqueça nessa brincadeira até escorregar na ladeira pra sair remexendo com as mãos nas cadeiras.


Leônidas Portella experimentando "Vem Cá Curiá"
Foto: Neusa de Paula

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Do Sagrado para o Profano

Vem Cá Curiá propõe a transição do sagrado para o profano. O sagrado é encontrado na Festa do Divino Espírito Santo e o profano no Cacuriá. Estou vivenciando esses dois momentos ao aprender a tocar caixa e me envolver com os brincantes na dança.

"Lá no céu tem sete estrelas, que alumeia o meio do mar
nós somos filhas de Deus, nós devemos adorar
nós somos filhos de Deus, nós devemos adorar"

Ao tocar a caixa e cantar os versos, tive sensações inusitadas, senti a fé ao olhar para o céu, não encontrei sete estrelas como dizia o verso mas encontrei uma que tinha um brilo que valia por todas. Engraçado, pensei na unidade, como se tudo dependesse de um eu presente. Será um desafio projetar essa unidade de fé com meu corpo, não sei que dimensão isso pode tomar, mas vou arriscar projetar essa unidade de fé na composição coreográfica. Servir o divino. Ter um corpo divino. Ter fé na minha dança.

Quando entrei no Cacuriá a unidade se dissipou, talvéz ela se escondeu para depois reaparecer com mais força, eu não podia ficar pensando só em mim, no meu interior, eu precisava projetar minha auto estima aos céus, me relacionar com outros corpos, com outras unidades, no calor dos olhares, da ciclicidade da energia vibrante que sobe dos pés à cabeça. Engraçado como um simples gesto de pisar barro provoca tanta sensualidade no corpo, os versos ganham duplo sentido, me sinto entrando num outro eu, sem configurar necessariamente um personagem, um eu de verdade, cheio de alegria.

Tudo começa com um som, o toque de caixa sugere o estravasamento da alma, os gritos, depois de tanta oração, de tanta dedicação, é a hora do povo se jogar, sair da repetição do sagrado para entrar na repetição do profano. A liberdade do circulo deve se fazer presente e constante na coreografia, é como se tivesse um bambolê dentro do corpo que percorre por todas os orgãos e sentidos. Difícil não é a rotação do quadril, do tronco, isso podemos aprender no decorrer das aulas, o dificil mesmo é provocar a rotação do pensamento, tudo tem que circular, assim como o sangue nas veias.

O Cacuriá é representa o lado profano da Festa do Divino Espirito Santo, é uma vertente do Carimbó das Caixeiras onde a energia entre gêneros se aflora para uma brincadeira sem hora para terminar.

Faço questão de registrar que hoje dancei com a Madá, uma das brincantes do Cacuriá de Dona Teté, me senti cacuriante, quanta honra em tão pouco tempo.

Conexão, ação, jogo, olhar, circular, tocar, respeitar, ser feliz e dançar, simplesmente dançar... Vem Cacuriá.

CACURIANDO

Nas quartas estou frequentando também os ensaios do Cacuriá de Dona Teté, no LABORARTE, me envolvendo com os brincantes, observando, dançando, entrevistando. E assim meu olhar se aguça a cada momento dessa instigante pesquisa.

CAIXEIRAS E CAIXEIRO

Todas as segundas e quartas estou frequentando as aulas de toque de caixa com a caixeira Roxa, junto com Neusa de Paula, bailarina do Núcleo Atmosfera de Dança-Teatro que está me ajudando bastante nesse processo, tocando caixa nos ensaios, fazendo registros fotográficos e de áudio, me dando assistência coreográfica, ajudando a formalizar o meu olhar sobre a pesquisa. Conversamos muito sobre as aulas,  sobre a pesquisa, sobre nossa cultura. É interessante observar a relação que se contrói entre a aprendiz Neusa e a mestre Roxa, enquanto isso, o tempo passa, muda, a sociedade evolui mecanicamente e as jovens filhas de caixeiras não querem mais aprender a tocar caixa, o que compromete a preservação dessa cultura.
Sou o unico homem aprendendo a tocar caixa, gosto do verso da Santa Croa, Roxa me disse que existem caixeiros também, são poucos mas existem, cantam, tocam e até oferecem festas para caixeiras. Os homens não participam ativamente da Festa do Divino Espírito Santo, as caixeiras deixam bem claro que não precisam deles para que a festa aconteça, os homens geralmente se encarregam de providenciar a confecção do mastro entre outras raras atividades.
Estou aprendendo a tocar caixa para entender melhor o ritmo, me aproximar dessa pulsação que se matém durante a festa e assim projetar melhor meu corpo para a criação da minha dança.

Ontem faleceu Dona Celeste, caixeira mor da Casa das Minas.

VEM CÁ CURIÁ...

É minha recente pesquisa sobre pré-expressividade em danças maranhenses. Ainda não descobri que rumos esta criação está tomando, nem pretendo, esse trabalho fala muito da minha sensibilidade, do olhar sobre o movimento das raízes de nossa cultura. É um trabalho onde a dramaturgia é o espectador que compõe a partir do que ele consegue visualizar ao dialogar com o jogo que estarei propondo com meu corpo no espaço. é uma dramaturgia livre. Vem Cá Curiá desconstrói a tradição, os costumes, as crenças, num diálogo entre corpo, espaço do povo, espaço do novo, sagrado, profano, simbólico, alegre, sensual, partindo de relatos, sons e imagens do Cacuriá, uma dança folclórica típica e cultural do Maranhão.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

CHEGANDO...

Estou numa avalanche de movimentos, de pensamentos... fervendo de idéias, de ideais. Dançar  é isso também, é pensar, mas será que só pensar basta para a dança, resumir um pensamento numa escrita? Prefiro permitir que as sensações sejam sentidas, nem tudo é possivel ser descrito, resumir é tão arriscado, e vou emaranhando ações, gosto de me sentir assim, inundado de sentimento. Que conceito se tem de sentimento? Acho que me afoguei na filosofia, se bem que filosofar também é bom para o movimento. E vou colocando toda essa essência, toda essa transparência nisso que chamo de corpo, chamo disso para não chamar de aquilo, acho que aquilo é mais desconhecido do que isso, não vou chamar de instrumento por que intsrumento é objeto pronto para ser tocado e o corpo nunca está pronto. Corpo é matéria? Matéria da dança? Acredito que seja um material, um troço, por mais que tentamos conhecê-lo mais o desconhecemos e nesse desconhecer a curiosidade se evidencia, então começamos a nos conhecer de verdade. A dança é essa verdade que fica impregnada na pele, essa transpiração prazerosa, esse gozo no espaço, é essa atmosfera onde se concentra na alma, na vida, é mais simples do que se imagina, é mais que um simples, apesar da diversidade, da multiplicidade, não quero entrar aqui para discutir termos, acho tão arriscada essa poluição de decodificações, essa sistematizações de um simples que precisa simplesmente ser vivido, dançar por exemplo, minha vida!