Um corpo que se constrói culturalmente e busca - através da dança - explorar a identidade de um povo, suas urgências e suas manifestações culturais mais marcantes para dimensionar em cena, o registro historiográfico que relaciona o patrimônio cultural (material e imaterial) com o panorama atual desse patrimônio. Ruínas é uma pesquisa em dança que desencadea um processo híbrido e incorpora "cultura popular maranhense" a um baú de linguagens artisticas, gerando um espetáculo contemporâneo, no qual a motivação central é causar no espectador uma reflexão a cerca de sua postura na manutenção de seu patrimônio cultural e portanto, na preservação de sua história.
domingo, 8 de maio de 2011
Experimentação de "Ruínas" na cidade de Alcântara - MA
Fui acompanhado por Ivy Faladeli e Janailton Santos numa viagem de lancha de São Luís para a cidade de Alcântara, no dia 02 de março de 2010 onde realizamos os primeiros registros de imagens do Corpo Sagrado, num cenário repleto de ruínas. Dancei sobre o mar naquela manhã onde o vento produzia ruídos sonoros intensos e o sol iluminava aquele cenário natural que refletia sobre meu corpo, refletia sobre as minhas reflexões, sobre os meus reflexos mais escondidos e revelando o meu olhar de contemplação, meus pensamentos, minha ansiedade na fluência das sensações mais verdadeiras.
Naquela tarde procuramos as ruínas da cidade de Alcântara, fizemos uma espécie de passeio pela cidade, visitamos igrejas, percorremos trilhas, subimos e descemos ladeiras, cercados por casarões coloniais. Dancei dentro das ruínas da casa do imperador, da igreja da matriz, de lugares que ainda não consegui identificar a história. No outro dia pela manhã acordamos cedo e fomos fazer imagens novamente dentro das ruinas para tentar fixar partituras de movimentos assim como experimentar novas influências.
Naquela tarde procuramos as ruínas da cidade de Alcântara, fizemos uma espécie de passeio pela cidade, visitamos igrejas, percorremos trilhas, subimos e descemos ladeiras, cercados por casarões coloniais. Dancei dentro das ruínas da casa do imperador, da igreja da matriz, de lugares que ainda não consegui identificar a história. No outro dia pela manhã acordamos cedo e fomos fazer imagens novamente dentro das ruinas para tentar fixar partituras de movimentos assim como experimentar novas influências.

Todos os momentos foram especiais dentro desse processo de experimentação, mas posso destacar alguns dos que mais me marcaram. Senti o corpo divino ao conseguir escalar uma parede arruinada e abrir meus braços no topo dela, sentindo o vento forte de olhos fechados é como se tivesse perto do céu, me deparei com aquela imensidão azul e imediatamente fixei a imagem da pomba do Divino Espírito Santo. Outro momento divino aconteceu ao transferir meu corpo saltando numa sequência de janelas do casarão e correr dentro das ruínas, na casa do imperador em frente à igreja, como se a cada movimento me estivesse revisitando minha própria história, como um imperador vendo seu império sendo reerguido, um novo teto surgindo, os azulejos tomando conta da grama e da vegetação das paredes. Não posso deixar de citar outro momento marcante desta experimentação, quando dancei na frente da Igreja da Matriz, perto do pelourinho, em frente à cruz.
As ruínas desabam, o homem continua arruinando sua própria história e a dança está me levando a conhecer um patrimônio além do material ou imaterial, um patrimônio espiritual.
“Divino” move meu espírito!
sábado, 7 de maio de 2011
Ruínas - Registros da primeira experimentação
Considero que sentir-se “arruinado” após exaustivas seja natural, afinal, esse processo se construiu de forma imprevisível a partir de cada estímulo, ação, reação, da conexão entre um olhar de um bailarino que se entrega sem medo ao olhar dos espectadores e suas interferências. Assim como houveram espectadores que provocaram estímulos agressivos para ver o cansaço agir da forma mais rápida e cruel sobre o corpo, houveram tentativas harmoniosas de construção sonora para sensibilizar o corpo. É nesse sentido que se constrói o verdadeiro significado de “Ruínas”, na reflexão sobre os próprios seres humanos e seus diferentes tipos de personalidades, assim como existem pessoas ansiosas e cruéis, existem pessoas sensíveis e calmas, enquanto alguns pensam na construção outros preferem pensar na destruição. É sobre a reflexão das interferências e das diferenças humanas que se constrói o significado de “Ruínas”, sobre o quanto o homem constrói e destrói sua própria memória, sua cultura, seu pensamento, seu próprio corpo.
Ao pensar em "Ruínas" num ponto de vista físico desintegrado penso em São Luís, cidade intitulada de Patrimônio Histórico da Humanidade e Capital Brasileira da Cultura, prestes a completar seus 400 anos, onde seu acervo de casarões encontra-se num longo e aparentemente irreversível processo de degradação. A cada ano que se passa mais casarões desabam e o cenário patrimonial de lindos casarões coloniais vai sendo substituído por ruínas cobertas por vegetações. Essa questão do abandono dos casarões de São Luís já foi inserida por mim em outro espetáculo, o “60’Safira no Casarão das Ilusões”, estreado pelo Núcleo Atmosfera de Dança-Teatro em 2010 apresentando-se dentro de casarões da Praia Grande de São Luís.
Nessa nova fase de uma pesquisa que estou desenvolvendo sobre a relação entre corpo e patrimônio, venho propor a criação de um trabalho de dança solo com três momentos, intitulado “Divino”, onde um desses momentos chama-se “Ruínas” uma investigação que se fixa em possibilidades criativas a partir das ruínas da cidade de Alcântara no Maranhão, o mesmo lugar onde acontece a Festa do Divino Espírito Santo, uma das maiores e mais importantes de nossas manifestações culturais. Surge então a busca por algo que estou intitulando inicialmente de Corpo Sagrado. A Festa do Divino Espírito Santo da cidade de Alcântara no Maranhão se manifesta entre versos, sons e costumes num cenário repleto de ruínas que são a configuração presente de vestígios de um passado histórico. Estou propondo uma experimentação a partir da pulsação da minha ancestralidade em movimentos que refletem questões ligadas à conservação da memória, da cultura, do patrimônio material e imaterial maranhense.
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