Considero que sentir-se “arruinado” após exaustivas seja natural, afinal, esse processo se construiu de forma imprevisível a partir de cada estímulo, ação, reação, da conexão entre um olhar de um bailarino que se entrega sem medo ao olhar dos espectadores e suas interferências. Assim como houveram espectadores que provocaram estímulos agressivos para ver o cansaço agir da forma mais rápida e cruel sobre o corpo, houveram tentativas harmoniosas de construção sonora para sensibilizar o corpo. É nesse sentido que se constrói o verdadeiro significado de “Ruínas”, na reflexão sobre os próprios seres humanos e seus diferentes tipos de personalidades, assim como existem pessoas ansiosas e cruéis, existem pessoas sensíveis e calmas, enquanto alguns pensam na construção outros preferem pensar na destruição. É sobre a reflexão das interferências e das diferenças humanas que se constrói o significado de “Ruínas”, sobre o quanto o homem constrói e destrói sua própria memória, sua cultura, seu pensamento, seu próprio corpo.
Ao pensar em "Ruínas" num ponto de vista físico desintegrado penso em São Luís, cidade intitulada de Patrimônio Histórico da Humanidade e Capital Brasileira da Cultura, prestes a completar seus 400 anos, onde seu acervo de casarões encontra-se num longo e aparentemente irreversível processo de degradação. A cada ano que se passa mais casarões desabam e o cenário patrimonial de lindos casarões coloniais vai sendo substituído por ruínas cobertas por vegetações. Essa questão do abandono dos casarões de São Luís já foi inserida por mim em outro espetáculo, o “60’Safira no Casarão das Ilusões”, estreado pelo Núcleo Atmosfera de Dança-Teatro em 2010 apresentando-se dentro de casarões da Praia Grande de São Luís.
Nessa nova fase de uma pesquisa que estou desenvolvendo sobre a relação entre corpo e patrimônio, venho propor a criação de um trabalho de dança solo com três momentos, intitulado “Divino”, onde um desses momentos chama-se “Ruínas” uma investigação que se fixa em possibilidades criativas a partir das ruínas da cidade de Alcântara no Maranhão, o mesmo lugar onde acontece a Festa do Divino Espírito Santo, uma das maiores e mais importantes de nossas manifestações culturais. Surge então a busca por algo que estou intitulando inicialmente de Corpo Sagrado. A Festa do Divino Espírito Santo da cidade de Alcântara no Maranhão se manifesta entre versos, sons e costumes num cenário repleto de ruínas que são a configuração presente de vestígios de um passado histórico. Estou propondo uma experimentação a partir da pulsação da minha ancestralidade em movimentos que refletem questões ligadas à conservação da memória, da cultura, do patrimônio material e imaterial maranhense.





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