Roxa: caixeira, acostumada com terreiros, ligada ao movimento da arte popular maranhense.
Leônidas: bailarino, acostumado com palcos, ligado ao movimento da arte contemporânea.
Roxa me chama de "menino".
Eu chamo Roxa de "flor de canela".
E assim nossa relação se constrói e ganha verdade a cada momento, mesmo nos mais inusitados de ambos os universos.
Encontrei o Divino em Roxa, a Roxa também é Branca, como uma pomba do Divino, na brancura de suas penas, na simbologia da Paz, na transparência de sua leveza no movimento de suas asas. Nunca pensei que as pombas fossem tão multipolares. Senti essa multiplicidade ao apresentar na Mostra SESC Guajajaras de Artes em São Luís, a primeira fase da pesquisa "Vem Cá Curiá", em caráter ainda performático.
Me disseram em outro momento que só ama a performance quem odeia o teatro, não concordo com essa afirmação pois a performance também a arte, e que espécie de artista pode amar uma linguagem detestando outra? Não desconsidero que a performance é contra a cena, que não se precisa ensaiar para fazê-la, mas o seu resultado é uma cena embora não seja esse o seu propósito inicial. Existe um eu (performer) e existe o outro (espectador), essa relação não passa de uma herança do teatro, embora o eu seja substituído por um sujeito (personagem). Será ódio mesmo ou será o grito do ego?
Voltando para o meu contexto, para a minha performance (amo o teatro), convidei a Roxa para estar comigo na performance e ela aceitou, elaborei um roteiro de possibilidades, tive muitos treinamentos nos últimos dias, preparei meu corpo para um tempo desconhecido no tempo do corpo presente, no tempo real, para o aqui e agora.
Roxa, habituada em tocar com outras caixeiras na Festa do Divino Espírito Santo ou para os brincantes do Cacuriá, parecia tensa, preocupada, me perguntou o que era para fazer, pedi que ela tocasse para eu dançar, começando com o toque do divino e depois fizesse uma variação rítmica a partir dos animais que ela conseguisse visualizar no meu corpo. Roxa achou tudo estrando, mas aceitou as condições propostas, pediu que providenciasse uma segunda caixa e convidou Neusa para entrar com ela tocando, não sei exatamente por que Roxa tomou essa iniciativa, acredito que ela estava muito nervosa, queria mesmo uma companhia que desse apoio para ela nesse momento inusitado, além disso, é bem típico das caixeiras não temer perante os desafios encontrados na vida pela fé infinita que elas carregam, o que era desafio se tornou destino. E o meu corpo ao entrar em conexão com o corpo da caixeira, traçou esse destino.
Flor de canela - E que hora tu vai parar de dançar menino?
Menino - Quando minha caixeira permitir!
Antes de tudo começar, combinamos que primeiro viria o toque sagrado e sempre que ela conseguisse visualizar posturas de animais no meu corpo teria que mudar para o toque profano. Quando anunciaram meu nome percebi uma multidão se aproximar, fui muito respeitado, fui digno de um grande silêncio.
A caixa tocou, meu corpo embalou...
Pensei que o tempo do sagrado fosse permanecer por mais tempo, eu havia planejado assim, mas aconteceu o inevitável, totalmente diferente do planejado, foi nesse momento que a essência da performance começou. Roxa viu as asas de um passarinho nos meus braços logo no inicio do trabalho, e o toque sagrado mudou bruscamente para o profano, tomando a maior parte do tempo e o sentido das ações. Tentei reverter a situação com gestos mas não consegui fazer Roxa diminuir a velocidade do toque, ela parecia estar em outro plano, num plano cósmico e essa cosmogonia ritualizou o momento, me lancei no espaço, dançando no ritmo acelerado da caixa, criando futuros provisórios.
Percebi que eu estava compondo tudo naquele exato momento, graças às influências do aprendizado que tive ao vivenciar o método de Composição em Tempo Real numa Residência Artística com o renomado coreógrafo português João Fiadeiro na Bienal Internacional de Dança do Ceará. Estava construindo aquilo que o João define como Tubo Estigmérgico. Esse tubo se estendeu, e mudou de paradigma quando me aproximei da caixeira na tentativa de parar a performance, lembrei do que havíamos combinado antes de começar o trabalho, tive que encontrar uma solução para esse tubo, parei, respirei fundo com a cabeça baixa reverenciando a presença do Divino Espírito Santo na imagem e no toque da caixeira, voltei a me movimentar num momento em que tudo parecia estar perdido com uma intensidade nunca experimentada pelo meu corpo.
Senti-me um grão de areia, assim o homem é perante o Divino. O homem vive as consequências de suas escolhas, são essas escolhas que traçam os caminhos, às vezes retos, às vezes tortuosos. O precisa de fé, acreditar em algo, acreditar em si mesmo talvez, mesmo que não seja o suficiente.
Eu acredito nas forças divinas sobre meu corpo.
Depois da performance me enchi de questionamentos, sempre dancei coisas prontas, coreografadas, cenicamente bem definidas, me surpreendi com tanta ousadia, percebi que minha dança se transformou a partir do Divino.
Ao chegar em casa conversei muito com Valda, Neusa, Thatielle, são artistas, são amigas, logo suspeitas, cada uma teve uma leitura diferente ao acompanhar a performance.
Meu irmão Thallis (outro suspeito), me contou que no momento da apresentação ouviu um comentário de um espectador que estava atrás dele, um comentário que não lhe deixou muito contente. O espectador desconhecido por ele, leigo em arte, disse "lugar de cascavel não é aqui". Após o descontentamento ele resolveu refletir sobre o comentário e constou que era positivo, no inicio da apresentação sigo o ritmo da caixa usando apenas a musculatura das costas, uma ação simples que provocou um efeito de hipnose. A cobra cascavel sempre hipnotiza antes de dar o bote, me senti honrado por tamanha comparação.
Tive sensações jamais vividas no universo da minha dança. Viva o Divino!
