quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

OUTROS ARES - Sensações entre palmeiras e sabiás.


Em “Outros Ares” o palco está aberto para transformações e sensações a partir do encontro entre corpos e objetos que habitam a praça, lugar largo e espaçoso, ordinariamente rodeado de edifícios, postes, pombos, árvores.

Leônidas Portella expondo as instruções numa palmeira da Praça Gonçalves Dias
Foto: Francisco Jara

Partindo de um roteiro de instruções previamente definido pelo coreógrafo, os dançarinos se espalham na praça para executar ações sem necessariamente ter como objetivo a criação de cenas, a atmosfera cênica se configura no espaço quando outros estímulos e obstáculos são colocados no jogo. Jogo seria a melhor definição para “Outros Ares”, há uma busca de olhares, uma conexão entre os corpos, uma necessidade de aguçar os sentidos para experimentar um dança inicialmente indefinida, que se define com a história do movimento dos dançarinos, do novo olhar sobre o espaço.

Núcleo Atmosfera dançando em diferentes momentos em "Outros Ares" na Praça Gonçalves Dias
Foto: Francisco Jara 

Vestidos socialmente para uma festa, sobre a grama, dançarinos executam modelos de ações corporais labanianos e o desnível do chão parece comunicar dificuldades humanas, as transformações do corpo no espaço cotidiano começam a causar estranhamento nos visitantes da praça. Os dançarinos brincam com suas sombras, uma ação simples que traz lembranças da infância, de um tempo que permanece vivo apesar das transformações do mundo, das transformações humanas, da evolução de tudo o que nos afasta desse universo repleto de reis, fadas, princesas, duendes e unicórnios.

Será que o presente é realidade? 
Será que o futuro realmente existe? 
E o passado? 
O que o homem faz com isso tudo? 
Há quanto tempo não percebemos nossas sombras? 
Há quanto tempo criamos nossas próprias sombras?

Neusa de Paula, Rosa Ewerton Jara e Luís Ferreira sobre a grama em "Outros Ares", dançando com suas sombras na Praça Marina Aragão

Cada dançarino executa um passo simples de tango que se repete durante toda a peça, no intervalo entre ações, a repetição deste passo define uma postura carregada de personalidade e autonomia, os corpos se organizam após a percepção e o respeito entre as diferenças e a dança passa a habitar a Praça Gonçalves Dias em São Luís do Maranhão, onde palmeiras e sabiás permanecem vivos entre patins e skates.
A poesia já habita a praça embora a maioria de seus visitantes não consigam percebê-la. 

Afinal, quem se interessa por poesias em praças nos dias de hoje? 

Nossos corpos!

E a dança parece dar corpo à poesia, quando o ar brota dos pulmões dos dançarinos e se mistura ao ar da praça, seja no convite para o visitante dançar sobre um banco, seja no deitar sobre o chão para ouvir risos de crianças, seja na conversa, no olhar, na reprodução do movimento dos galhos das palmeiras, na patinação sem rodas nos pés, na liberdade e na simplicidade do gesto.

Núcleo Atmosfera - NUA, deitados e cercados por crianças que visitavam a Praça Gonçalves Dias
Foto: Francisco Jara
Núcleo Atmosfera - NUA, dançando passos simples de tango em "Outros Ares" na Praça Gonçalves Dias
Foto: Francisco Jara


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Prêmio de Melhor Trabalho de Pesquisa em Dança 2010

Grato pela singela homenagem que recebi em 2010.

Homenagem nas mãos de Leônidas Portella
Foto: Manlio

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Sinal

Sinal - Num Trânsito de Sensações

Luís Ferreira, Timóteo Cortes, Rosa Ewerton Jara, Cleyce Colins, Alex Liberato, Neusa de Paula em "Sinal"
Foto: Uriel Ewerton

Numa avalanche de sensações, tento propor algo que relacione Dança e Performance, chamo esse primeiro momento de “Sinal”...

Experimentar possíveis relações entre Dança e Performance no espaço urbano, conceber uma obra sem ensaio, refletir sobre o que definimos enquanto espetáculo, são algumas das inquietações que contribuem para a concepção de “Sinal”.

Sinal – sinônimo de indício, vestígio, rastro, traço. A faixa de pedestres é um espaço cotidiano por onde transitam tensões, sensações, onde cores mudam eletronicamente para que corpos possam alcançar um foco, o outro lado da rua, por onde continuam a percorrer, ultrapassando os limites do tempo. No sinal há cruzamentos entre corpos desconhecidos, no trânsito natural da vida, onde a dança surge, interfere, torna-se poesia na paisagem urbana.

O sinal de trânsito define a hora certa de parar, observar, atravessar para o outro lado da rua onde provavelmente as pessoas caminharão mecanicamente sem comunicação alguma, o corpo espera uma ação eletrônica e reage imediatamente, tencionando músculos em frações de segundos.

A complexidade de “Sinal” está em sua simplicidade, no movimento que se revela dentro de um roteiro de ações o dançarino traz sua identidade, sua memória, suas características pessoais para que deste modo a coreografia se defina em tempo real. Dançar sem ensaio de forma livre no meio da rua, há outra maneira mais sensível para poetizar o cotidiano dentro dele mesmo?

Penso agora numa discussão sobre a verdadeira função da arte quando observo esse transporte da convencional caixa cênica diretamente para a rua, onde o leigo, culto, apressado, focado, está em constante movimento e inserido na ação, onde o cenário é composto por pombos, prédios, carros, postes, luzes, cores e principalmente por pedestres.

Sinalizamos pela dança num fluxo onde transita as sensações.