Após estudarmos basicamente modos de aplicação dos Temas de Movimento de Rudolf Laban, relacionado com a consciência do corpo, com a consciência do peso e do tempo, com a consciência do espaço, com a consciência da fluência, estando dentro e fora de espaços convencionais, passamos a exercitar “Métodos para Composições Coreográficas”. A proposta deste estudo é instigar o senso criativo e a formação de novos coreógrafos dentro do Núcleo Atmosfera. O Núcleo Atmosfera já existe há cinco anos e as coreografias de todos os trabalhos que integram o repertório são assinadas por mim, sempre desejei ver as ramificações desses passos iniciais assim como ter artistas que despertassem interesse para compor obras de dança, nunca decretei que seria apenas eu o coreógrafo de sempre, mas o engraçado é que mesmo assim até hoje nunca consegui enxergar esse interesse em ninguém, ou será que minhas obras me cegaram?
Acredito, por minha experiência, que o coreógrafo tem sempre aquele tom de sensibilidade extra, aquela facilidade de viajar no tempo para outros tempos, para outros planos da vida. Agora me lembro de vários episódios que aconteceram comigo no decorrer desses anos com “senso criativo aguçado” (foi o melhor termo que encontrei para definir minha loucura): por pensar demais em coreografia já passei do ponto de ônibus, já deixei uma panela perfurar no fogo após colocar uma água para ferver, foram tantos desastres, o melhor de tudo é que sobrevivi a esse momento para escrever minha história.
Após começar a pensar em coreografar profissionalmente deixei de ajudar minha mãe na cozinha e me tornei um “desastre culinário”. Não gostaria que ninguém desistisse do exercício de coreografar depois de conhecer minha experiência, afinal cada corpo tem uma história e uma maneira diferente de lidar com as situações do mundo. Falo dos acontecimentos do cotidiano ao mesmo tempo em que falo de uma sala de dança, em mim isso é comum, pois o cotidiano geralmente é minha maior inspiração, nele posso observar o movimento das pessoas, dos objetos, das nuvens, dos animais, das árvores, dos acontecimentos na televisão, as musicas, os jornais, as imagens estampadas nos outdoors. Vida e arte no meu olhar estão sempre juntas.
Antes eu tinha medo de coreografar, por que eu não tinha técnica alguma e consequentemente isso me levava a desvendar o desconhecido, posso afirmar que lidar com o desconhecido não é nada fácil e foi assim fui aprendendo a gostar de desafios, a cada coreografia um novo universo me desafiava, estava apenas aprendendo a representar o ser humano, o ser complexo e complexado, triste a alegre, leão e dragão, sexuado, assexuado, homossexuado, bissexuado, trissexuado, polissexuado... Não há como conhecer completamente o corpo de ninguém, a cada movimento uma sensação, uma emoção, a própria ciência até hoje descobre uma novidade. O importante é que ao perder o medo do desconhecido perdi o medo de coreografar.
Quando coreografo me organizo, tento comunicar da melhor forma aquilo que tenho a propor, recebo as propostas trazidas pelos dançarinos, me disponho a observar.
Coreografia é um olhar projetado sobre ações harmoniosamente organizadas.
No século em que estamos desfrutamos de ferramentas tecnológicas que podem nos ajudar neste processo de organização, como filmadoras, câmeras fotográficas e até celular, após o registro gravado pode-se repetir inúmeras vezes as ações sem perder detalhes, é óbvio que a sensação não será a mesma de estar presente em tempo real, mas conserva e prolonga o observar, além disso, os registros videográficos e fotográficos também podem servir para a criação de novos temas. Costumo usar papel e caneta ao observar ações em tempo real e uso pipoca quando vejo os vídeos em casa, coreografar também pode ser uma delícia. Com o passar das práticas e do tempo, cada coreógrafo vai consequentemente definindo sua melhor forma de projetar seu olhar sobre o corpo e sobre a vida.
DESCRIÇÃO DO PRIMEIRO ESTUDO COREOGRÁFICO
Experimento I – “Uma dança que se chama Você”
Estímulos sonoros ocupam o espaço vazio, é a descrição de uma proposta de dançar diferente, de dançar livre, cada corpo ao seu modo segue um roteiro de ações definidas. O espaço delimitado convida os corpos para sua ocupação, para que transforme o vazio num caos criativo. O roteiro é definido com uma sequência de gestos simples, gestos executáveis por qualquer tipo de corpo.
“Essa dança se chama VOCÊ. Conhece VOCÊ? Que ritmo tem VOCÊ? Dançam VOCÊ: ele e ela”, esta foi a descrição inicial das instruções e para completar disse a regra do jogo aos participantes: “Não esperem por mim para resolver nada”. Fui objetivo, deixei a liberdade criativa florescer, as ações era propostas em tempo reduzido, a capacidade de improvisar estava sendo provocada, houve precipitações no primeiro momento da experimentação, é reflexo da descoberta do novo, provoca ansiedade, em aspectos de criação o universo desconhecido sempre nos leva ao conhecimento de si mesmo.
Houve repetições das instruções, a cada repetição uma proposta de movimento diferente teria que ocupar o espaço vazio. A cada repetição as sensações levavam os corpos a um fluxo contínuo numa atmosfera absurda. Eu sempre encaro o absurdo com uma qualidade criativa, o absurdo e o ridículo me encantam, os dançarinos do Núcleo Atmosfera são carregados destas qualidades.
Após a experimentação, conversamos sobre “Uma dança que se chama Você”, onde os dançarinos tiveram espaço para expor suas sensações e seus olhares.
Qual a melhor forma de instigar uma criação?
Quais os movimentos são mais sugestivos?
Quais os movimentos despertam significação social?
Qual o movimento você mais gostou de apreciar?
Quais os movimentos podem fortalecer uma estética coreográfica?
O que é possível criar a partir dessa experimentação?
E desta forma tento provocar os dançarinos, discutindo sobre a importância do estudo coreográfico. Acredito nesta troca, sempre sinto necessidade de dançar quando estou coreografando, ainda não encontrei nenhum coreógrafo em São Luís que instigasse minha criação, e Núcleo Atmosfera surge das minhas necessidades de bailarino, dos anos em que meu corpo só descrevia no espaço o olhar do coreógrafo através de movimentos tecnicamente impecáveis que não falavam sobre meu corpo, sobre a minha dança. Busquei e encontrei experiências que me deram suporte e espaço para a criação fora do meu estado, os coreógrafos de São Luís (não estou generalizando) ainda preferem optar pelo método de composição escrita e intitular harmoniosas formas clássicas tendenciosamente modernas de obras coreográficas contemporâneas.
Então, o que me resta, é estimular novos coreógrafos, já que depender da espera não contribui para dança de forma alguma, o movimento da dança contemporânea no Maranhão ainda se encontra em processo de crescimento, e esse crescimento também depende de inúmeras questões, de formação social, cultural e principalmente política. Nossa política cultural se chama caos.
“Para dançar VOCÊ, é preciso ser preciso. Qualquer um pode dançar VOCÊ. Dance agora VOCÊ comigo! Preparem-se para dançar VOCÊ novamente...