quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Assa Cana

Leônidas Portella experimentando movimentos no Salão Versátil do Teatro Arthur Azevedo
Foto: Neusa de Paula

Existe um caminho sem retorno, alcântara que liga o corpo aos dois polos conflitantes, de um lado eu, do outro o desconhecido, escuro e claro. Há uma caixeira em primeiro plano e ela decide o jogo e o tempo, enquanto confirmo a exatidão da ações, a intenção do gestos e a conexão entre nossos diferentes universos. Nesse caminho há sempre uma escolha e uma consequência, o deslocamento é a escolha e a consequência é o destino.
Um chapéu espera a cabeça do brincante que agora não quer só brincar, quer também propor uma reflexão sobre a história do seu corpo sobre a satisfação do cansaço.
A caixeira toca para que o Divino apareça, para que o corpo do homem seja digno e transpareça tudo, inclusive o pecado. Mas o que é o pecado? O pecado é voltar, é perder a relação com o chão, é imobilizar o tronco, é como se meu corpo fosse uma cana em deslocamento, com suas raízes e seu tronco.
A doce ancestralidade reverbera nos poros.
A cana está verde, cercada de bichos, o jabuti traz longevidade, o jacaré sacode o rabo e o gavião totoria no galho da imbaúba.
Assa cana, para que eu me aqueça nessa brincadeira até escorregar na ladeira pra sair remexendo com as mãos nas cadeiras.


Leônidas Portella experimentando "Vem Cá Curiá"
Foto: Neusa de Paula

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