Vem Cá Curiá propõe a transição do sagrado para o profano. O sagrado é encontrado na Festa do Divino Espírito Santo e o profano no Cacuriá. Estou vivenciando esses dois momentos ao aprender a tocar caixa e me envolver com os brincantes na dança.
"Lá no céu tem sete estrelas, que alumeia o meio do mar
nós somos filhas de Deus, nós devemos adorar
nós somos filhos de Deus, nós devemos adorar"
Ao tocar a caixa e cantar os versos, tive sensações inusitadas, senti a fé ao olhar para o céu, não encontrei sete estrelas como dizia o verso mas encontrei uma que tinha um brilo que valia por todas. Engraçado, pensei na unidade, como se tudo dependesse de um eu presente. Será um desafio projetar essa unidade de fé com meu corpo, não sei que dimensão isso pode tomar, mas vou arriscar projetar essa unidade de fé na composição coreográfica. Servir o divino. Ter um corpo divino. Ter fé na minha dança.
Quando entrei no Cacuriá a unidade se dissipou, talvéz ela se escondeu para depois reaparecer com mais força, eu não podia ficar pensando só em mim, no meu interior, eu precisava projetar minha auto estima aos céus, me relacionar com outros corpos, com outras unidades, no calor dos olhares, da ciclicidade da energia vibrante que sobe dos pés à cabeça. Engraçado como um simples gesto de pisar barro provoca tanta sensualidade no corpo, os versos ganham duplo sentido, me sinto entrando num outro eu, sem configurar necessariamente um personagem, um eu de verdade, cheio de alegria.
Tudo começa com um som, o toque de caixa sugere o estravasamento da alma, os gritos, depois de tanta oração, de tanta dedicação, é a hora do povo se jogar, sair da repetição do sagrado para entrar na repetição do profano. A liberdade do circulo deve se fazer presente e constante na coreografia, é como se tivesse um bambolê dentro do corpo que percorre por todas os orgãos e sentidos. Difícil não é a rotação do quadril, do tronco, isso podemos aprender no decorrer das aulas, o dificil mesmo é provocar a rotação do pensamento, tudo tem que circular, assim como o sangue nas veias.
O Cacuriá é representa o lado profano da Festa do Divino Espirito Santo, é uma vertente do Carimbó das Caixeiras onde a energia entre gêneros se aflora para uma brincadeira sem hora para terminar.
Faço questão de registrar que hoje dancei com a Madá, uma das brincantes do Cacuriá de Dona Teté, me senti cacuriante, quanta honra em tão pouco tempo.
Faço questão de registrar que hoje dancei com a Madá, uma das brincantes do Cacuriá de Dona Teté, me senti cacuriante, quanta honra em tão pouco tempo.
Com certeza a sensação de estar participando lá dentro deve ser melhor, mas visualizar tudo isso que tu falou também é maravilhoso! Ouvir os toques do cacuriá vibrando perto de mim, a alegria intensa dos brincantes, a liberdade de movimento, a unidade dos corpos, o toque corporal, a diferença de corpos que juntos pareciam um só. A resposta do coro e a voz das caixeiras, tudo mágica. Ilha dos encantos, agora estou te descobrindo! E tudo graças a ti... Obrigada mi amor!
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