domingo, 30 de janeiro de 2011
sábado, 29 de janeiro de 2011
REGISTROS
"Registros", fala de um corpo à serviço do comércio, de um corpo investigador que se torna objeto ao se relacionar com pessoas, olhares e ações cotidianas que se repetem num determinado espaço. As propostas de movimento são construídas em tempo real, partindo de entrevistas realizadas com servidores, visitantes e funcionários do Serviço Social do Comércio SESC-Deodoro, no dia 28 de janeiro de 2011.
Concepção e pesquisa: Leônidas Portella.
Produção: Drao
Como surgiu "Registros"?
Ontem exatamente às 03:16 da madrugada estive na frente do notebook imaginando o que dançar no SESC hoje, o engraçado dessa situação é que nesse momento criativo até as coisas mais simples me parecem ser muito complexas, tive que pensar em algo voltado para um público especialmente composto por idosos, funcionários, visitantes e comerciários no horário do almoço, um horário em que você se sente ignorado e ao mesmo tempo devorado.
Ao relacionar corpo e alimento nesse momento engraçado (mesmo sem semelhança alguma) lembro-me de leituras que estou fazendo sobre os escritos de Sally Banes em Greenwich Village 1963 - avant-garde, performance e o corpo efevercente, um livro que nos transporta para o cenário dos acontecimentos artísticos que residiram em Nova York na década de 60, num cenário onde foram iniciados os famosos happenings.
Em "Eat", um happening, Allan Kaprow contruiu um ambiente de vigas queimadas, estrados, torres de madeira e escada de mão, em que, em diferentes temporadas, se ofereciam aos visitantes vinho, maçãs, bananas fritas e cruas, sanduíches de geléia e batatas salgadas, onde os participantes pareciam estar dentro de um corpo e a simples ação de entrar no espaço já se remetia à ingestão, estar dentro do espaço era como participar de um processo digestivo, o mapa da planta do soalho lembrava o diagrama de um útero. O heppening de Kaprow nos faz pensar também sobre a própria comida como um corpo.
Voltando para a atualidade, ao contexto em que resolvi me inserir, fiquei pensando em como seria bom dançar dançar no SESC algo inovados, que falasse de mim mesmo, que aproximasse meu corpo do público alvo, algo simples, direto...
E que tal conceber uma dança sobre as pessoas que caminham pelo SESC, essas pessoas que sobem as escadas, que trabalham em suas dependências, que vem apenas almoçar, fazer atividades físicas, jogar xadrez, assistir jogo de futebol e filme?
Dançar registros no SESC foi para mim uma experiência inovadora, a cada momento estou me permitindo ainda mais para novas descobertas e hoje posso dizer apenas que danço, não posso mais afirmar o que danço, pois essa resposta eu já não tenho, fugiu de mim, a unica certeza que tenho na vida é a certeza de que vou dançá-la até a morte, o movimento não para. Só morre para os que não conhecem a dança.
Sei que não me conheço, mas continuo a dançar...
PROCEDIMENTO PARA DANÇAR "REGISTROS"
- Elaboração de um roteiro de perguntas
- Entrevistas com pessoas no SESC, gravando o áudio com um aparelho mp3
- Criar movimentos em tempo real sobre o áudio dessa entrevista.
- Dançar os movimentos usando uma música, sem o áudio da entrevista.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
UMA DANÇA EM VOCÊ - ROTEIRO III
Esta proposta de estudo foi elaborada a partir de escritos de Lenira Rangel sobre Os Temas de Movimento de Rudolf Laban e adaptado ao Núcleo Atmosfera – NUA, por Leônidas Portella.
O objetivo principal deste estudo é experimentar as propostas de movimentos de Rudolf Laban, usando-as como material de pesquisa de linguagem e criação de movimentos. Nesta experimentação usamos o Tema VI que está relacionado ao uso do corpo como um instrumento, ou um objeto.
Este tema também lida com:
§ Gestos – incluem todos os movimentos do corpo, que não estão concernentes a suportar peso. Gestos não são apenas com as mãos, podemos fazer gestos com o quadril ou com os pés, com o tronco.
Primeira Instrução: Voluntariamente entre no espaço e experimente no seu corpo a execução de diferentes tipos de gestos, relacionando-os ao estudo das Ações Corporais de Laban das aulas anteriores.
- Estabeleça uma relação entre espectadores e dançarinos. Os espectadores são todos os dançarinos que não agiram voluntariamente na Primeira Instrução.
Variação I: Após um determinado tempo, inverta os papéis, onde os dançarinos agora serão os espectadores e entrarão no espaço executando apenas os gestos propostos pelos corpos do primeiro momento.
Variação II: Proponha a execução dos movimentos em diferentes linhas espaciais.
- Aguce o senso de observação em todos os participantes
§ Passos – incluem todas as transferências de peso de um suporte para outro (neste caso o suporte são os pés). Passos com pés paralelos, abertos (como Carlitos), nos calcanhares, sobre os dedos. Passos agachados, para trás, como formiga ou gigante, largos, amplos, estreitos, em ziguezague, em círculos, etc.
Primeira Instrução: Entrem no espaço executando diferentes tipos de passos.
- Coloque um modelo de som para criar uma atmosfera no espaço
§ Locomoção – inclui maneiras de transportar o corpo de um lugar para o outro. A locomoção mais prosaica é feita através de passos, mas há vários tipos de rolamentos, rastejamentos, deslizamentos, saltos.
Primeira Instrução: Entrem no espaço e executem uma possibilidade de locomoção.
Variação I: Após um determinado tempo de observação, peça para todos juntos executarem a locomoção de uma pessoa chamando-a pelo seu nome.
Variação II: Para que as demais locomoções sejam experimentadas por todos, chame o nome de outra pessoa, e assim sucessivamente.
- Coloque um modelo de som dinâmico
§ Pular – inclui todos os movimentos nos quais o ponto de suporte é temporário. Laban decodificou cinco tipos gerais de pulos ou saltos.
Primeira Instrução: Experimente os cinco tipos de pulos definidos por Laban:
1 - Pule de um pé para o mesmo pé;
2 - Pule de um pé para dois pés;
3 - Pule de dois pés para dois pés;
4 - Pule de dois pés para um pé;
5 - Pule de um pé para o outro pé;
Variação I: Faça variações desses saltos pelo espaço.
Segunda Instrução: Elabore composições com elementos dos Temas conhecidos até agora.
- Coloque diferentes modelos de sons para instigar mudanças de ritmos e planos.
§ Virar – inclui todos os movimentos nos quais é feita uma mudança de frente. A referência de frente pode ser dada em relação ao espaço ou em relação à própria pessoa. Em Laban é o centro do corpo (a região do umbigo) que define o que é frente.
Primeira Instrução: A partir do que Laban define como frente, experimentem diferentes formas de virar.
- Não espere os integrantes esvaziarem o espaço para lançar a próxima proposta.
§ Imobilidade – quando ficamos “imóveis”, o corpo todo está com seus fluxos sanguíneos, digestivos, as batidas do coração, os olhos, em movimento.
Primeira Instrução: Exercite a imobilidade do seu corpo
Segunda Instrução: Faça a transição destas seis propostas de Laban a partir da variação de estímulos musicais.
- Coloque diferentes modelos de sons para tocar durante um determinado tempo.
| Núcleo Atmosfera - NUA, discutindo sobre práticas de composição coreográfica Foto: Gisele Pereira |
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
UMA DANÇA SOBRE VOCÊ - ROTEIRO II
Este roteiro de ações surgiu do estudo das ações corporais de Rudolf Laban e integra a metodologia aplicada em práticas de criações coreográficas no Núcleo Atmosfera – NUA, por Leônidas Portella.
1. Conte-nos a história de suas cicatrizes.
2. Execute o melhor movimento que você consegue.
3. Faça algo em seu corpo, algo que nem todo mundo é capaz de fazer.
4. Execute um passo simples de dança.
5. Tente executar um passo de dança que você gosta, mas não consegue.
6. Crie uma dança para os seus pés.
7. Execute uma Dança de Rua pessoal.
8. Proponha uma percussão com sons de seu corpo.
9. Observem este movimento (executado pelo coreógrafo)
10. Agora construa uma frase coreográfica partindo deste movimento.
11. Executem suas frases coreográficas ao mesmo tempo.
12. Rolem no chão, em duplas e abraçados pelo espaço.
13. Esvaziem o espaço.
14. Um corpo entra dançando um gesto simples, o próximo corpo entra e propõe um segundo gesto, e assim sucessivamente até que todos os corpos entrem e dancem a repetição da colagem de todos os gestos.
15. Dance livremente ao som que tocar.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
"Uma dança que se chama VOCÊ" - ROTEIRO I
Essa dança se chama VOCÊ
Conhece VOCÊ ?
Que ritmo tem VOCÊ?
Dançam VOCÊ: ele e ela.
Ele entra e para no centro do espaço
Ela senta com as costas na parede
Ele entra e deita
Ela entra e deita sobre ele
Eles entram e se abraçam
Elas entram e desmaiam
Ela canta uma musica romântica
Eles se juntam em pares e dançam
Eles se beijam
Eles pisam nos pés
Eles falam coisas intimas em tom alto com se ninguém tivesse ouvindo
Eles se separam e permanecem dançando e falando como se estivessem juntos
Eles percebem que estão sozinhos
Elas admiram os vestidos
Eles admiram os sapatos
Ela sobe no lugar mais alto e fala um segredo em tom alto
Eles aplaudem calorosamente o segredo dela
Ela fica sozinha no meio do espaço
Eles formam um bloco distante dela
Ela estende um sorriso
Ele ou ela entram e falam sobre a importância do riso
Eles entram e mostram partes do corpo
Ela começa a produzir um som engraçado
Eles dançam esse som engraçado
Eles começam a andar em grupo
Eles conversam andando
Eles conversam correndo
Eles conversam correndo e saltando
Eles congelam
Eles pensam numa forma de saltar diferente
Eles pensam em um nome para esse salto
Esse salto será chamado de salto de alguma coisa...
Eles, de um a um, falam o nome do salto e saltam pelo espaço
Para dançar VOCÊ, é preciso ser preciso.
Qualquer um pode dançar VOCÊ
Dance agora VOCÊ comigo!
Preparem-se para dançar VOCÊ novamente.
Roteiro de Ações - "Uma dança que se chama VOCÊ"
Por: Leônidas Portella
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Estudo de Técnicas de Composição Coreográfica
Após estudarmos basicamente modos de aplicação dos Temas de Movimento de Rudolf Laban, relacionado com a consciência do corpo, com a consciência do peso e do tempo, com a consciência do espaço, com a consciência da fluência, estando dentro e fora de espaços convencionais, passamos a exercitar “Métodos para Composições Coreográficas”. A proposta deste estudo é instigar o senso criativo e a formação de novos coreógrafos dentro do Núcleo Atmosfera. O Núcleo Atmosfera já existe há cinco anos e as coreografias de todos os trabalhos que integram o repertório são assinadas por mim, sempre desejei ver as ramificações desses passos iniciais assim como ter artistas que despertassem interesse para compor obras de dança, nunca decretei que seria apenas eu o coreógrafo de sempre, mas o engraçado é que mesmo assim até hoje nunca consegui enxergar esse interesse em ninguém, ou será que minhas obras me cegaram?
Acredito, por minha experiência, que o coreógrafo tem sempre aquele tom de sensibilidade extra, aquela facilidade de viajar no tempo para outros tempos, para outros planos da vida. Agora me lembro de vários episódios que aconteceram comigo no decorrer desses anos com “senso criativo aguçado” (foi o melhor termo que encontrei para definir minha loucura): por pensar demais em coreografia já passei do ponto de ônibus, já deixei uma panela perfurar no fogo após colocar uma água para ferver, foram tantos desastres, o melhor de tudo é que sobrevivi a esse momento para escrever minha história.
Após começar a pensar em coreografar profissionalmente deixei de ajudar minha mãe na cozinha e me tornei um “desastre culinário”. Não gostaria que ninguém desistisse do exercício de coreografar depois de conhecer minha experiência, afinal cada corpo tem uma história e uma maneira diferente de lidar com as situações do mundo. Falo dos acontecimentos do cotidiano ao mesmo tempo em que falo de uma sala de dança, em mim isso é comum, pois o cotidiano geralmente é minha maior inspiração, nele posso observar o movimento das pessoas, dos objetos, das nuvens, dos animais, das árvores, dos acontecimentos na televisão, as musicas, os jornais, as imagens estampadas nos outdoors. Vida e arte no meu olhar estão sempre juntas.
Antes eu tinha medo de coreografar, por que eu não tinha técnica alguma e consequentemente isso me levava a desvendar o desconhecido, posso afirmar que lidar com o desconhecido não é nada fácil e foi assim fui aprendendo a gostar de desafios, a cada coreografia um novo universo me desafiava, estava apenas aprendendo a representar o ser humano, o ser complexo e complexado, triste a alegre, leão e dragão, sexuado, assexuado, homossexuado, bissexuado, trissexuado, polissexuado... Não há como conhecer completamente o corpo de ninguém, a cada movimento uma sensação, uma emoção, a própria ciência até hoje descobre uma novidade. O importante é que ao perder o medo do desconhecido perdi o medo de coreografar.
Quando coreografo me organizo, tento comunicar da melhor forma aquilo que tenho a propor, recebo as propostas trazidas pelos dançarinos, me disponho a observar.
Coreografia é um olhar projetado sobre ações harmoniosamente organizadas.
No século em que estamos desfrutamos de ferramentas tecnológicas que podem nos ajudar neste processo de organização, como filmadoras, câmeras fotográficas e até celular, após o registro gravado pode-se repetir inúmeras vezes as ações sem perder detalhes, é óbvio que a sensação não será a mesma de estar presente em tempo real, mas conserva e prolonga o observar, além disso, os registros videográficos e fotográficos também podem servir para a criação de novos temas. Costumo usar papel e caneta ao observar ações em tempo real e uso pipoca quando vejo os vídeos em casa, coreografar também pode ser uma delícia. Com o passar das práticas e do tempo, cada coreógrafo vai consequentemente definindo sua melhor forma de projetar seu olhar sobre o corpo e sobre a vida.
DESCRIÇÃO DO PRIMEIRO ESTUDO COREOGRÁFICO
Experimento I – “Uma dança que se chama Você”
Estímulos sonoros ocupam o espaço vazio, é a descrição de uma proposta de dançar diferente, de dançar livre, cada corpo ao seu modo segue um roteiro de ações definidas. O espaço delimitado convida os corpos para sua ocupação, para que transforme o vazio num caos criativo. O roteiro é definido com uma sequência de gestos simples, gestos executáveis por qualquer tipo de corpo.
“Essa dança se chama VOCÊ. Conhece VOCÊ? Que ritmo tem VOCÊ? Dançam VOCÊ: ele e ela”, esta foi a descrição inicial das instruções e para completar disse a regra do jogo aos participantes: “Não esperem por mim para resolver nada”. Fui objetivo, deixei a liberdade criativa florescer, as ações era propostas em tempo reduzido, a capacidade de improvisar estava sendo provocada, houve precipitações no primeiro momento da experimentação, é reflexo da descoberta do novo, provoca ansiedade, em aspectos de criação o universo desconhecido sempre nos leva ao conhecimento de si mesmo.
Houve repetições das instruções, a cada repetição uma proposta de movimento diferente teria que ocupar o espaço vazio. A cada repetição as sensações levavam os corpos a um fluxo contínuo numa atmosfera absurda. Eu sempre encaro o absurdo com uma qualidade criativa, o absurdo e o ridículo me encantam, os dançarinos do Núcleo Atmosfera são carregados destas qualidades.
Após a experimentação, conversamos sobre “Uma dança que se chama Você”, onde os dançarinos tiveram espaço para expor suas sensações e seus olhares.
Qual a melhor forma de instigar uma criação?
Quais os movimentos são mais sugestivos?
Quais os movimentos despertam significação social?
Qual o movimento você mais gostou de apreciar?
Quais os movimentos podem fortalecer uma estética coreográfica?
O que é possível criar a partir dessa experimentação?
E desta forma tento provocar os dançarinos, discutindo sobre a importância do estudo coreográfico. Acredito nesta troca, sempre sinto necessidade de dançar quando estou coreografando, ainda não encontrei nenhum coreógrafo em São Luís que instigasse minha criação, e Núcleo Atmosfera surge das minhas necessidades de bailarino, dos anos em que meu corpo só descrevia no espaço o olhar do coreógrafo através de movimentos tecnicamente impecáveis que não falavam sobre meu corpo, sobre a minha dança. Busquei e encontrei experiências que me deram suporte e espaço para a criação fora do meu estado, os coreógrafos de São Luís (não estou generalizando) ainda preferem optar pelo método de composição escrita e intitular harmoniosas formas clássicas tendenciosamente modernas de obras coreográficas contemporâneas.
Então, o que me resta, é estimular novos coreógrafos, já que depender da espera não contribui para dança de forma alguma, o movimento da dança contemporânea no Maranhão ainda se encontra em processo de crescimento, e esse crescimento também depende de inúmeras questões, de formação social, cultural e principalmente política. Nossa política cultural se chama caos.
“Para dançar VOCÊ, é preciso ser preciso. Qualquer um pode dançar VOCÊ. Dance agora VOCÊ comigo! Preparem-se para dançar VOCÊ novamente...
Oficina de Corpo Para Quem Quiser Dançar com Leônidas Portella
Após residir em eventos nacionais com os coreógrafos João Fiadeiro (Portugal), Lucy Guerin (Autrália) e Tadashi Endo (Japão), Leônidas Portella (Brasil) estará ministrando em São Luís/MA, a "Oficina de Corpo Para Quem Quiser Dançar". A oficina compõe-se de experimentações para artistas e não artistas com o objetivo de criar obras de dança e performance a partir de interações entre corpos.
A oficina terá início no dia 14 de março de 2010
Dias: Segundas e quartas
Horário: 19 às 21:30
Investimento: 60,00 (desconto para ex alunos)
Limite de 20 vagas
*Leônidas Portella é artista, graduou-se em Teatro na Universidade Federal do Maranhão. Em 2009 ministrou a "Oficina de Dança-Teatro", experiência que resultou no espetáculo "As Cores de Frida", obra coreográfica que passou a integrar o repertório do Núcleo Atmosfera e circulou por nove estados brasileiros através do SESC Amazônia das Artes em 2010.
Telefone: (98) 8123-1869
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